sexta-feira, 7 de abril de 2017

Ficção

23 de fevereiro.
                “Querido diário, hoje fomos ao parque de diversões, eu consegui pegar o ursinho rosa que ela tanto queria, seu sorriso quando o pegou em mãos foi o melhor presente possível, acho que hoje não vou conseguir dormir pensando no quão linda ela estava...”

24 de fevereiro.
                “Querido diário, hoje ela me abraçou forte quando eu ajudei um gatinho a descer da árvore, ela parece ser perfeita para mim, seu jeito é tão suave e sua personalidade tão agradável, ainda consigo sentir seu cheiro doce impregnado em minhas roupas, mais do que isso acho que seu cheiro ficou em minha alma...”

25 de fevereiro.
                “Querido diário, ela finalmente me deu um beijo! Estávamos no cinema e nossas mãos se tocaram enquanto eu fui pegar a pipoca, eu achava que essas coisas só aconteciam em filmes, foi realmente engraçado ter acontecido enquanto assistíamos um filme, passamos o restante do filme de mãos dadas, sua mão era tão macia e quentinha, a sensação continua até agora... Depois do filme fomos tomar um sorvete e como sou desajeitado acabei sujando o canto da minha boca, ela sorriu e deixou um beijinho ali... Tá bom, eu sei que não foi bem um beijo, mas seus lábios são tão maravilhosos que me senti nas nuvens...”

26 de fevereiro.
                “Querido diário, eu criei coragem e beijei ela (dessa vez de verdade), foi rápido, mas mágico, ela estava um pouco atrasada para a aula, então não pude demorar, estou planejando dar um beijo decente amanhã, mas e se as coisas ficarem estranhas? Estou um pouco apreensivo...”

27 de fevereiro.
                “Querido diário, no caso das coisas ficarem estranhas eu decidi levar um buquê de flores para ela, não estava cheio como aqueles grandes, mas acho que poucas flores mostram mais a minha intenção, eu não tinha tempo de esperar um buquê grande ficar pronto, eu passei rapidamente pela floricultura que fica pelo meu caminho e, além disso, ela nunca se importou sobre eu não ter tanto para gastar com ela, de qualquer maneira o sorriso dela foi tão sincero que estou pensando em criar um jardim aqui em casa e dar flores sempre que puder...”

28 de fevereiro.
                “Querido diário, eu ganhei cookies dela, não simples cookies, mas únicos, foram feitos por ela mesma, sabe quantas pessoa no mundo vão ter a oportunidade de provar? Eu me sinto tão único e honrado entre 7 bilhões de pessoas e ainda fomos jantar juntos, ela fica tão fofa quando come que quase esqueci de comer minha própria comida, aproveitamos bem cada segundo juntos...”

29 de fevereiro.
                “Querido diário, hoje havia uma daquelas cabines de tirar fotos na festa de uma amiga dela, fiquei feliz quando ela me convidou, saber que ela pensou em mim foi o melhor de tudo, tiramos várias fotos juntos, até colocaria nessa página, mas  eu já a coloquei na parede, quero olhar para o lindo sorriso dela todos os dias quando acordar...”

30 de fevereiro.
                “E mesmo que eu invente um dia a situação continua a mesma, mesmo que seja mais um diário fictício do que minha rotina, por que nada do que eu escrevo aqui se torna realidade?! Eu sei que ainda não consigo te esquecer, eu sei que ainda fico confuso toda vez que vejo um cara perto de você, mas eu não tenho a confiança de que qualquer um deles pode te fazer feliz como eu faria, eu não posso confiar seu coração a outro alguém... O que eu tenho para confiar? Seu coração nunca foi meu de qualquer maneira, eu achei que depois que escrevesse todas as minhas fantasias esse desejo e essa falta de você passaria, mas ainda hoje eu não consigo te esquecer.
                Tudo bem se eu arrancar umas páginas ou outras, né? Eu vou reescrever a nossa história, não vamos acabar dessa maneira, eu não vou deixar a realidade me consumir, vou escrever com uma precisão de detalhes que nem vai parecer que não se trata da realidade, que realidade, essa que infiltra a minha pele? Eu não preciso dela, certo? Eu só preciso me convencer... Eu só preciso de você.”

                Assim como o prometido ele arranca algumas páginas e começa tudo novamente naquela fria madrugada.

1 de janeiro.
                “Querido diário, assim que nossos olhares cruzaram sorrimos um para o outro, eu senti algo percorrer por minhas veias e o coração bater mais forte, é isso que chamam de paixão?...”

                Ele continua escrevendo e escrevendo, mas assim que fechasse o diário saberia que sem a presença dela, aquele pequeno quarto deprimente, pareceria sem saída, como se estivesse preso dentro de sua própria mente.

15 de fevereiro.
                “Querido diário, hoje eu a beijei como se a briga de ontem não fosse nada, afinal eu não consigo deixar sua doce presença, e sei que pode parecer um pouco precipitado, mas uma historia linda como a nossa não pode ter um final...”

                Assim de novo, os dois acabam juntos na ficção, mesmo em suas histórias mais absurdas e desconectadas ela estava lá, como se o tempo e sentindo apenas existissem para dar sentido a história dos dois, ele continua escrevendo a história que jamais terá um fim para seu inquieto coração. Sem brigas sérias, sem desentendimentos mortais, apenas a doce felicidade de um alegre casal que foge completamente da realidade dos olhares não correspondidos e dos caminhos separados. Aos poucos ele vai acreditando no que escreve, aos poucos ele se deixa intoxicar pelas fantasias.

4 de abril.
                “Querido diário, eu corro rapidamente e a abraço, enquanto ela viajou nesse fim de semana eu só consegui pensar no quanto sentia sua falta, sei que foi apenas uma viagem familiar, mas minha vontade era de não deixar você escapar dos meus braços nunca mais, é como eu disse antes, não existe um final para nós...”

                E noite após noite ele escreve e deseja que tudo o que esteja ali se torne realidade, como uma criança que olha incessantemente para o céu em busca de uma estrela cadente que possa realizar seu desejo mais profundo e impossível, são incontáveis as historias que ele rabiscou e reescreveu, porque de alguma forma parecia que ela estava lá, mesmo que fosse apenas na mente dele.
                Conforme o tic-tac do relógio e a troca da lua pelo sol o escritor compulsivo deixa a caneta cair sobre o papel, a frustração acerta seu coração, o que deveria escrever? Será que deveria entregar um pouco de realidade? Ele apenas consegue escrever simples frase como “Eu te amo”, “Eu te quero”, “Preciso de você”, mas não importa quantas vezes aquelas frases fossem lidas, eram apenas desejos egoístas de um escritor compulsivo em um papel manchado de lágrimas que fora envelhecido com o tempo.
                Ele continua escrevendo aquela história vaga que não poderia ter um final feliz ou triste era apenas uma história, ainda sim ele tenta a enfeitar e trazer a tona uma falsa felicidade, mas nada disso faz parte da realidade, trata-se apenas de um simples desejo, de um simples lampejo da insanidade.

                Ele decidi queimar aquele caderno que escrevera tantas vezes diário, e mesmo assim ele sabia que aquele era apenas o começo do fim, que juntamente com aquele papel usado, queimava também seu coração.

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