domingo, 18 de junho de 2017

Fita

                 Eu amarro e desamarro a gravata diversas vezes, mas por alguma razão ele sempre acaba desatando, meio que me lembra nossa relação, mesmo que eu quisesse que durasse para sempre parece que acabamos nos soltando no final, mesmo que o tempo esteja sendo difícil para mim, não se preocupe, não vou te culpar por nada, ao invés disso fico feliz que aconteceu, você e eu.
                Também não posso voltar no tempo para abrir meus olhos para o que realmente deveria ser protegido, eu era tão fraco para dizer sequer uma palavra que no final não consegui te pedir para ficar, quem me dera fossemos essa gravata que eu seguro agora, nós poderíamos reatar perfeitamente e eu teria certeza que esse nó seria bem amarrado para que nunca mais se soltasse.
                Eu apenas me concentro em terminar de arrumar a gravata, com o mesmo vigor que ataria nossa relação, eu me pergunto se você também pensa o mesmo... Não sobre a gravata, porque eu devo ser o único louco que passa a ver nossa relação em algo tão simples do dia a dia, como se fosse tão fácil quanto dar um simples nó, mas eu me pergunto se você ainda pensa sobre voltar.
                E assim duas ou três garrafas depois, lá estou eu chorando e dizendo que não queria que você fosse embora, pra ninguém ali da mesa isso era novidade e nem o meu caminho quando decidi sair pela cidade de madrugada, não importa aonde pensasse que queria ir, meus pés apenas me levavam para a sua casa.
                Cambaleando pra direita e depois pra esquerda com um sorriso bobo no rosto lembrando do sonho em que você apareceu na outra noite, seria uma má ideia querer ver ele de novo? Talvez não fosse, se eu estivesse com um buquê de flores e um pedido de desculpas tão sincero quanto a cor vivida das flores que carrego, mas minha bebedeira apenas distorceu as coisas, então eu estava indo a passos desordenados, gravata folgada e fala arrastada segurando apenas a minha vontade de te ver de novo.
                Em frente aquele sobrado um tanto quanto velho eu sinto meu coração despedaçar, mas eu sorrio fingindo que tudo está no seu lugar, afinal a realidade e a fantasia eram uma fina linha que a bebida já não conseguia separar, quem me dera eu tivesse feito uma surpresa dessas de madrugada pra você, mas eu estava sempre tão ocupado com o trabalho, com os meus amigos, com o que eu gostava que eu nunca fui um bom homem pra você.
                Não havia pedra pra jogar na sua janela, mas de qualquer forma eu teria errado, não havia um violão pra fazer uma serenata bela, apenas a minha voz de embriagado, mas eu deveria ao menos cantar algo, pra ver se você ao menos me olhava de soslaio.

“Joseane meu amor,
você me deixou
E aqui fiquei largado
Se essa música te irritou
eu prometo ir embora calado”

                E como esperado você apareceu na janela, só que sem aquele olhar terno que eu esperava, era um olhar irritado de quem iria receber reclamação dos vizinhos, de quem iriam rir por ter um ex-namorado tão desafinado e ser infantil em suas composições.
                Eu apenas não consigo mais voltar no tempo e recuperar tudo que perdi tão lentamente, todas aquelas vezes em que não disse nada me levaram a ficar sem nada e agora só posso segurar as memórias que outrora foram realidade.
                E aquela bendita gravata que eu não consigo mais amarrar corretamente continua em meu pescoço, só que em minha mente tão distorcida ela se torna uma fita, como aquela fita que se dá laços em presentes... Será que se eu fosse um presente você me aceitaria de volta? Só me resta amarrar na minha testa e bater na sua porta.
                E assim nesse papel ridículo que eu me sujeitava, eu bati na sua porta esperando aquela linda miragem que é você, será que é por você estar sempre sorrindo que não percebi o que estava acontecendo? Se ao menos a verdade conseguisse apagar essa saudade.
                Ela abre a porta lentamente escondendo-se atrás da mesma, talvez por vergonha de estar de camisola.
                -Tcharam! Olha só o presente que você ganhou – era isso que eu imagino ter falado, mas minha língua estava tão enrolada que talvez não fosse isso que ela tivesse escutado.
                -Por favor, Gonçalo, nós já terminamos, será que você pode voltar pra sua casa? Eu chamo um táxi, se precisar... - seu tom era terno e calmo como alguém que não quer que os vizinhos ouçam a bagunça do ex-namorado.
                -Ahn? Como é que a gente terminou? Você ainda sorri quando me vê- aquele ser alterado que naquele momento era eu começou a sorrir e ela apenas suspirou profundamente.
                -É porque eu não te odeio completamente... Agora fique aonde está que vou chamar o táxi- ela fecha a porta e eu apenas escuto seus passos.

                É tudo que eu me lembro antes de escorregar pela porta e adormecer ali mesmo no tapete de “bem-vindo”, quando acordei com a bendita ressaca, a gravata ainda estava na minha testa e no meu braço um laço vermelho, que já estava desamarrado.

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