Eu amarro e desamarro a gravata diversas vezes, mas por
alguma razão ele sempre acaba desatando, meio que me lembra nossa relação,
mesmo que eu quisesse que durasse para sempre parece que acabamos nos soltando
no final, mesmo que o tempo esteja sendo difícil para mim, não se preocupe, não
vou te culpar por nada, ao invés disso fico feliz que aconteceu, você e eu.
Também
não posso voltar no tempo para abrir meus olhos para o que realmente deveria
ser protegido, eu era tão fraco para dizer sequer uma palavra que no final não
consegui te pedir para ficar, quem me dera fossemos essa gravata que eu seguro
agora, nós poderíamos reatar perfeitamente e eu teria certeza que esse nó seria
bem amarrado para que nunca mais se soltasse.
Eu
apenas me concentro em terminar de arrumar a gravata, com o mesmo vigor que
ataria nossa relação, eu me pergunto se você também pensa o mesmo... Não sobre
a gravata, porque eu devo ser o único louco que passa a ver nossa relação em
algo tão simples do dia a dia, como se fosse tão fácil quanto dar um simples
nó, mas eu me pergunto se você ainda pensa sobre voltar.
E assim
duas ou três garrafas depois, lá estou eu chorando e dizendo que não queria que
você fosse embora, pra ninguém ali da mesa isso era novidade e nem o meu
caminho quando decidi sair pela cidade de madrugada, não importa aonde pensasse
que queria ir, meus pés apenas me levavam para a sua casa.
Cambaleando
pra direita e depois pra esquerda com um sorriso bobo no rosto lembrando do
sonho em que você apareceu na outra noite, seria uma má ideia querer ver ele de
novo? Talvez não fosse, se eu estivesse com um buquê de flores e um pedido de desculpas
tão sincero quanto a cor vivida das flores que carrego, mas minha bebedeira
apenas distorceu as coisas, então eu estava indo a passos desordenados, gravata
folgada e fala arrastada segurando apenas a minha vontade de te ver de novo.
Em
frente aquele sobrado um tanto quanto velho eu sinto meu coração despedaçar,
mas eu sorrio fingindo que tudo está no seu lugar, afinal a realidade e a
fantasia eram uma fina linha que a bebida já não conseguia separar, quem me
dera eu tivesse feito uma surpresa dessas de madrugada pra você, mas eu estava
sempre tão ocupado com o trabalho, com os meus amigos, com o que eu gostava que
eu nunca fui um bom homem pra você.
Não
havia pedra pra jogar na sua janela, mas de qualquer forma eu teria errado, não
havia um violão pra fazer uma serenata bela, apenas a minha voz de embriagado,
mas eu deveria ao menos cantar algo, pra ver se você ao menos me olhava de soslaio.
“Joseane meu amor,
você me deixou
E aqui fiquei largado
Se essa música te
irritou
eu prometo ir embora
calado”
E como
esperado você apareceu na janela, só que sem aquele olhar terno que eu
esperava, era um olhar irritado de quem iria receber reclamação dos vizinhos,
de quem iriam rir por ter um ex-namorado tão desafinado e ser infantil em suas
composições.
Eu
apenas não consigo mais voltar no tempo e recuperar tudo que perdi tão
lentamente, todas aquelas vezes em que não disse nada me levaram a ficar sem
nada e agora só posso segurar as memórias que outrora foram realidade.
E aquela bendita gravata que eu
não consigo mais amarrar corretamente continua em meu pescoço, só que em minha
mente tão distorcida ela se torna uma fita, como aquela fita que se dá laços em
presentes... Será que se eu fosse um presente você me aceitaria de volta? Só me
resta amarrar na minha testa e bater na sua porta.
E assim
nesse papel ridículo que eu me sujeitava, eu bati na sua porta esperando aquela
linda miragem que é você, será que é por você estar sempre sorrindo que não
percebi o que estava acontecendo? Se ao menos a verdade conseguisse apagar essa
saudade.
Ela
abre a porta lentamente escondendo-se atrás da mesma, talvez por vergonha de
estar de camisola.
-Tcharam!
Olha só o presente que você ganhou – era isso que eu imagino ter falado, mas
minha língua estava tão enrolada que talvez não fosse isso que ela tivesse
escutado.
-Por
favor, Gonçalo, nós já terminamos, será que você pode voltar pra sua casa? Eu
chamo um táxi, se precisar... - seu tom era terno e calmo como alguém que não
quer que os vizinhos ouçam a bagunça do ex-namorado.
-Ahn?
Como é que a gente terminou? Você ainda sorri quando me vê- aquele ser alterado
que naquele momento era eu começou a sorrir e ela apenas suspirou
profundamente.
-É
porque eu não te odeio completamente... Agora fique aonde está que vou chamar o
táxi- ela fecha a porta e eu apenas escuto seus passos.
É tudo
que eu me lembro antes de escorregar pela porta e adormecer ali mesmo no tapete
de “bem-vindo”, quando acordei com a bendita ressaca, a gravata ainda estava na
minha testa e no meu braço um laço vermelho, que já estava desamarrado.