sexta-feira, 14 de julho de 2017

O Copo Vermelho

                Ela termina de colocar seus brincos favoritos e dá uma última checada no espelho, do outro lado da cidade ele pega sua jaqueta de couro, passa a mão no topete e desce as escadas.
                Ao ver a filha toda arrumada, a mãe grita toda preocupada:
                -Filha, não deixa seu copo sozinho!
                Ela acena e manda um beijinho, preocupação de mãe é tão fofinho.
                Na outra casa existe uma mãe igualmente preocupada, mas por outro motivo.
                -Hey, não esquece de usar camisinha!
                Ele apenas dá risada, sua mãe nem lhe cobrava para que fosse santinho.
                Ela demora vinte minutos para chegar, ele cinco.
                Ela chega com mais duas amigas, ele sozinho.
                Ela só está afim de dançar a noite inteira, já ele quer se divertir com algo mais íntimo.
                Ela dança pra lá, dança pra cá, ele paquera daqui e paquera de lá.
                Ela se cansa e decide sentar um pouco no bar e por que não aproveitar uma bebida?
                -Barman, me vê uma vodka com limão!
                Do outro lado do salão ele acaba de levar um fora pela terceira vez consecutiva e só então decide se sentar ao lado daquela morena que segura um copo vermelho.
                Ela toma um golinho e descansa o copo no balcão e só então escuta alguém chamar seu nome na multidão era uma de suas amigas que veio se despedir, havia quebrado o salto e já não estava mais confortável principalmente porque no dia anterior já tinha comparecido em um evento, se despedem com um beijo e ela aproveita para procurar a outra amiga na multidão, nem sinal dela, mas não havia com o que se preocupar era a rainha da diversão.
                A morena vira seu banquinho de volta para o balcão e termina sua bebida em goles maiores, já queria voltar a dançar e por isso nem tinha prestado atenção naquele copo vermelho que ficou um tempo sem supervisão.
                Sobrou apenas o último gole quando o cara charmoso sentado ao lado começou a puxar assunto, ele também parecia apressado para terminar a bebida e julgando pelo modo como sua perna se agitava ele também estava desesperado para dançar.
                Os dois se levantam e vão para o meio da pista, eu me pergunto se a opinião dela teria mudado se soubesse que lá dentro ele estava pensando que “Se não posso conquistar, por que não forçar?”, mas já era tarde eles dançavam lentamente ao som da frenética música eletrônica era até cafona de se observar.
                 Talvez uma ou duas músicas depois ela começou a se sentir tonta e já não conseguia ficar em pé sem se apoiar, ele diz que vai ajudar, mas ela já não sabe direito aonde está e sequer consegue dar o endereço para que volte para casa em segurança.
                Feito uma ressaca ela sente a dor de cabeça a despertar naquele quarto branco ainda com a vista embasada por conta da claridade, ela primeiro tenta identificar onde está, talvez em um hospital, quem sabe e só então ela parece notar algo frio contra  a sua pele, esse algo era uma banheira. Ela estava nua na banheira de um banheiro branco onde sequer fazia a ideia de onde ficava.
                Em meio a isso tentamos achar uma explicação, quem sabe se o salto não tivesse quebrado naquele horário, se o copo fosse transparente e ela tivesse prestado atenção nas bolhas que se formavam ali ou até mesmo se a mãe dele tivesse dito para não drogar ninguém, nada disso faz sentido, é apenas um meio de acalmar o coração dizendo que as coisas poderiam ter acontecido de outro jeito.

                Eu apenas espero que aquela não tenha sido a última vez que ela se sentiu confortável em sua própria pele.